domingo, 22 de novembro de 2009

AMNÉSIA CÓSMICA



Um físico da Universidade Estadual da Pensilvânia, nos Estados Unidos, fez muitos cálculos e conseguiu algumas pistas do que podia estar acontecendo antes do nascimento do Universo -- ou, pelo menos, antes do nascimento da versão que conhecemos do Universo.
A história tradicional da origem do cosmos conta que ele surgiu cerca de 13,7 bilhões de anos atrás, quando, por alguma razão misteriosa, toda a energia e matéria contida nele, até então reunida num ponto infinitamente quente e denso, passou a um movimento de expansão radical. Essa narrativa é basicamente o que diz a famosa teoria do Big Bang, hoje consagrada nos meios científicos, mas ainda marcada por algumas limitações.

Embora essa teoria já tenha se mostrado muito eficiente para explicar como o Universo evoluiu nos últimos bilhões de anos, até o surgimento do Sol, da Terra e da vida, ela não consegue sondar o exato instante do surgimento do cosmos -- aquele momento em que tudo estava reunido num único ponto, também conhecido no linguajar "fisiquês" como uma "singularidade".

Isso acontece porque, para analisar uma situação tão radical quanto a singularidade inicial, é preciso reunir no mesmo saco a teoria da relatividade geral, que explica como funciona a gravidade, e a física quântica, que esclarece como funcionam as outras forças da natureza, ligadas aos fenômenos atômicos. Ocorre que a relatividade e a teoria quântica, embora funcionem muito bem separadas, só produzem lixo quando reunidas  (as equações deixam de fazer sentido

Para sondar um fenômeno como o início do Universo, portanto, é preciso desenvolver uma outra teoria, mais poderosa, capaz de descrever tudo que está envolvido naquele instante primordial. Ninguém sabe hoje que teoria é essa, mas há algumas candidatas, atualmente sendo desenvolvidas por grupos de física teórica.

Foi com uma dessas alternativas que o físico Martin Bojowald chegou a suas conclusões sobre o período anterior ao "início oficial" do Universo. A teoria que ele usou é chamada de gravidade quântica de laços, e seu objetivo é basicamente reescrever a famosa relatividade de Einstein em termos que permitam-na dialogar com o resto do mundo quântico.

Partindo dessa versão da gravidade quântica, é possível sondar a singularidade, e aí os cientistas ficam livres para brincar com a hipótese de que o Big Bang pode não ter sido o real início do Universo. Com efeito, talvez o cosmos nem tenha um início no tempo -- possivelmente ele sempre foi e sempre será, alternando apenas em seu estado. Nesse contexto, o Big Bang clássico representa apenas um momento no tempo em que o Universo passou de um estado de contração para um estado de expansão. 

Caso isso esteja correto, Bojowald traz boas notícias. Segundo seus cálculos, é possível que alguma "informação" sobre o estado do Universo pré-Big Bang possa ter "vazado" para dentro dessa versão atual quando a expansão (re)começou. Isso quer dizer que, com as observações certas, talvez seja possível obter provas de que o Big Bang não foi o princípio de tudo e até mesmo desvendar algumas das características dessa fase anterior do Universo.

Agora, a má notícia: segundo o físico da Pensilvânia, esse quadro da "vida anterior" do Universo nunca estará completo. Se, de um lado, há a possibilidade de encontrar alguma evidência do que veio antes, de outro lado, os cálculos mostram que, ao passar pelo gargalo do Big Bang, o Universo sofre de uma espécie de "amnésia cósmica": muitos dos detalhes do que veio antes disso simplesmente são apagados e não deixam resquícios uma vez que o cosmos "renasce".

Claro que alguns físicos menos entusiasmados com a gravidade quântica de laços ou com o trabalho de Bojowald podem argumentar que, se essa amnésia cósmica é realmente inevitável, a nova teoria não fez muito mais que a antiga versão do Big Bang para explicar o que teria vindo antes. Mas o cientista da Pensilvânia responde a isso: "Esse pode parecer um retorno à imagem tradicional do Big Bang, em que falar de 'antes do Big Bang' não tem significado. Mas é mais sutil: nessa imagem tradicional, o Big Bang é precedido por uma singularidade em que a teoria se quebra. A singularidade é uma limitação técnica, em vez de um início físico. A gravidade quântica usada aqui pode fornecer soluções que vão além da singularidade clássica. Ainda assim, as limitações para as observações de algumas, mas não todas, propriedades pré-Big Bang agora são derivadas da teoria, não são limitações da teoria", escreveu o pesquisador, em estudo publicado on-line pelo periódico científico "Nature Physics".
FONTE: www.g1.globo.com/notícias/ciencias/

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